segunda-feira, 29 de julho de 2019

Janela para o passado

Tenho medo. De muitas coisas, na verdade. Falo aqui, entretanto, de meu medo de perder a memória. A vó Edith foi acometida de Alzheimer, ou pelo menos é nisso que acreditamos. O vô Carlos nunca permitiu que saísse de casa para ir ao médico e deixar que fosse devidamente diagnosticada. Os sintomas, porém, eram claros. Ela viveu assim cerca de dez anos, até falecer.

No início sempre pensamos que são esquecimentos comuns, confusões bobas da idade avançada. Acho que ela tinha perto de setenta anos quando deu os primeiros sinais. Aos poucos, quando o doente começa a realizar ações autômatas sem conexão umas com as outras, como ligar a água para encher uma banheira que não lavará ninguém, ou acender as bocas de um fogão que não receberá nenhuma panela nas próximas horas, percebemos que não há nada de comum naquilo. É a partir dali que a pessoa começa a morrer. Talvez não biologicamente, mas, na impressão e nos sentimentos dos que com ela convivem.

Lembro de certa vez estarmos os sete em casa - meus avós, minhas irmãs, a mãe, minha tia e meu primo - fazendo, cada um, algo diferente. Acho que minhas irmãs estavam no quintal, que era enorme e cheio de árvores, e flores. Lá na cidade fazia sempre frio, às vezes mais, outras menos. Elas brincavam com o cachorro que meu avô mantinha amarrado na casinha do jardineiro, pra que não nos importunasse dentro de casa, ou latisse para as pessoas na rua. Estávamos eu, o vô e a vó na cozinha apenas, e os outros não sabia ao certo onde estavam naquele momento. A vó olhou pela janela para o quintal, mas numa direção em que não se via Andréa e Martha. Ela olhou fixamente e ficou parada por algum tempo, fez leves movimentos com cabeça como se acompanhasse algo com os olhos. Logo uma das mãos se ergueu até a altura do peito, como se fosse intervir à distância.

"Vinícius, vem pra dentro!" - Ela disse, a plenos pulmões.

O vô e eu paramos para observá-la, trocando brevemente olhares entre nós dois, e de volta para ela. Estávamos sem reação, apenas entendendo o que acontecia.

"Não fique aí fora" - Ela prosseguiu.

Não havia ninguém naquela parte do quintal. Pude ver por outra janela que minhas irmãs ouviram aquilo, e também pararam para observar o que acontecia ali. Aquela parte do quintal que se via pela janela da vó era pequena, não tinha árvores, só um pouco de grama, alguns arbustos baixinhos, e um caminho de concreto e pedras que levava até a garagem e ao portão por onde o vô saía e entrava com o carro. Minha tia estacionava na calçada, fora da casa, pois não havia vagas para todos. O vô não permitia que a vó saísse de carro já que uma vez causou um acidente. Ela precisava de óculos para dirigir, e ele não permitia que ela fosse ao médico consultar-se sobre isso, pois certamente seria muito caro para que ele pudesse pagar.

"Vinícius, vem que o leite tá quente." - Ela insistiu.

Meu primo, Cícero, irmão de Vinícius, entrou na cozinha devagar e uniu-se a mim e ao nosso avô, a ver imóveis a vó encostada no parapeito. Cícero correu para junto dela, olhou para fora e só viu o pequeno gramado. Olhou-a, que mirava fixamente lá fora ignorando todo o resto, e mais uma vez buscou Vinícius com o olhar. Correu, então, para seu quarto, batendo forte a porta.
A mãe veio a passos macios com seus pés em meias brancas de lã quentes e confortáveis, através de todo o assoalho velho de madeira da sala, passando para o piso frio de azulejos da cozinha. Ali juntou-se ao batente da janela, e envolveu a vó com um dos braços, dando-lhe um beijo carinhoso e demorado nas têmporas.

"Venha, mãe. Que tal fazermos um pouco de palavras cruzadas?" - Disse minha mãe, enquanto conduzia a vó até a mesa da sala, onde lhes esperavam papel e caneta.

O vô olhava um olhar perdido e vazio, mas, resiliente ou orgulhoso, para o quintal, onde estavam minhas irmãs, que viam tudo acontecer. Quando percebeu que agora elas o olhavam, sorriu apenas com os lábios frios, baixou os olhos, e meteu-se a guardar a louça que já estava seca sobe a pia. A tia Vera estava na sala, sentada na única poltrona da casa, perto do telefone, com os cotovelos sobre os joelhos, e as mãos cobrindo seu rosto. Seu peito agitado oscilava e soluçava nervosamente. Por entre seus dedos, e ao longo de seus braços, as lágrimas corriam.

Vinícius, irmão mais velho de Cícero, era um rapaz que eu admirava. Ele tinha cabelos compridos desde uma idade em que as crianças não costumam ter muito livre arbítrio. Sempre tinha ideias pra boas brincadeiras, e atividades criativas. Ele tinha vários anos a mais que eu, mas, não era isso que me fazia vê-lo muito maior que eu. Acho que era sua liderança, ou a espontaneidade. Não lembro de vê-lo relutar alguma vez. Ele dirigia seu primeiro carro quando morreu em uma das estradas que saíam da cidade e que, no frio que sempre fazia à noite, ficava inteiramente afundada em neblina. Não lembro para onde ele estava indo, mas, lembro bem a data por que foi em meu aniversário que isso aconteceu, três anos antes.

A vó faleceu alguns anos depois, e o vô mais alguns à frente. Hoje não há ninguém da família morando na casa.

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